O Ciclo Glicose-Ácidos Graxos na corrida

11/10/2026

Escrito por: Jair Rodrigues Garcia Júnior.

Corredores de longa distância, em geral, são magros, com percentuais de gordura de 6-10% para homens e 10-14% para mulheres.  Considerando peso corporal variando entre 60 e 80Kg,  o peso de gordura varia entre 5-10Kg para ambos os gêneros. Esse estoque de gordura, relativamente pequeno, fornece de 45.000 a 90.000 Kcal, energia de sobra para uma maratona com gasto aproximado de 2.700 Kcal. Porém, os músculos, mesmo os mais treinados não utilizam apenas a gordura como combustível.

METABOLISMO INTERMEDIÁRIO

Cada célula corporal, incluindo as fibras musculares, tem sua própria usina de produção de ATP, a única forma energia que pode ser utilizada. O estoque de ATP é minúsculo, por isso tem que haver produção contínua, na medida em que vai sendo utilizado. Para isso, cada célula depende de combustível, na forma de moléculas específicas: glicose, ácidos graxos (gorduras), aminoácidos, corpos cetônicos e fosfocreatina. Porém, apenas algumas células têm reservas destes combustíveis. A solução é que algumas células/tecidos/órgãos compartilhem suas reservas com as demais células. O fígado tem uma reserva de glicose (glicogênio) e também tem capacidade de produzir glicose e corpos cetônicos. O tecido adiposo é uma grande reserva de ácidos graxos (gordura). Metabolismo intermediário é como se chama esse compartilhamento de combustíveis e outras moléculas entre as células/tecidos/órgãos [1]. É imprescindível durante a corrida.

Metabolismo intermediário é como se chama esse compartilhamento de combustíveis e outras moléculas entre as células/tecidos/órgãos. É imprescindível durante a corrida.

REGULAÇÃO METABÓLICA

Os músculos podem usar os 5 combustíveis:  glicose, ácidos graxos, aminoácidos, corpos cetônicos e fosfocreatina. Podem até utilizar todos ao mesmo tempo mais sempre em proporções diferentes, dependendo de alguns fatores como a disponibilidade do combustível, a intensidade e duração do exercício. Hormônios, neurotransmissores e os próprios combustíveis estimulam ou inibem enzimas, fazendo que a fibra muscular passe a utilizar mais de um combustível e menos do outro. O treinamento de corrida aprimora essa regulação metabólica nos músculos para o melhor desempenho, porém de acordo as condições durante uma prova específica, a regulação varia para atender da melhor forma os músculos e o corpo como um todo, principalmente o cérebro [2].

COMBUSTÍVEIS DA CORRIDA

No caso da corrida, os combustíveis que mais importam são a glicose e os ácidos graxos. Os músculos têm preferência pela glicose, porém os ácidos graxos são utilizados simultaneamente, em proporção menor ou quase igual. A denominação utilizada para a inibição recíproca da glicose e dos ácidos graxos e alternância na proporção de utilização de cada um é ciclo da glicose-ácidos graxos (ou Ciclo de Randle) [1].

REGULAÇÃO DOS COMBUSTÍVEIS

São 3 fatores que determinam o combustível usado em maior proporção: i. Intensidade – em intensidades leves (até 40% do VO2 máx.) e moderadas (40-60% do VO2 máx.) a utilização de glicose é menor ou igual à utilização de ácidos graxos, enquanto em alta intensidade (mais que 60% do VO2 máx.) a utilização de glicose é bem maior. ii. Disponibilidade de glicose – havendo glicose após uma refeição ou quando se consome bebida com carboidrato (CHO) ou gel durante o treinamento, o metabolismo é desviado para glicose e a utilização de ácidos graxos fica baixa. iii. Disponibilidade de ácidos graxos – após período de horas de jejum ou +1h de exercício sem consumo de CHO, a concentração de ácidos graxos no sangue fica aumentada, enquanto a concentração de glicose está em leve queda, levando à maior utilização de ácidos graxos para poupar a glicose ainda disponível [3].

DEPENDÊNCIA DE GLICOSE

Você pode pensar que, em algumas situações os músculos podem usar apenas gorduras, já que o estoque é bem grande, mas não é isso que acontece. “As gordura queimam numa chama de CHO” é uma frase clássica da fisiologia/metabolismo, que deixa clara a necessidade de glicose o tempo todo, mesmo quando os ácidos graxos estão sendo utilizados em maior proporção. Para um corredor que mantém o pace próximo de seu limiar (~60-80% do VO2 máx.), ter glicogênio e glicose disponíveis nos músculos é essencial para o desempenho em provas com +90 min. Quanto mais se prolonga a corrida, mesmo havendo grande disponibilidade de ácidos graxos, a diminuição do glicogênio/glicose se torna um fator limitante.

CAPACIDADE DE BETA-OXIDAÇÃO

Para corredores que buscam desempenho, aprimorar a capacidade de oxidar ácidos graxos nas mitocôndrias (processo metabólico da beta-oxidação) pode representar uma vantagem, pois a glicose será mais poupada [4]. Para corredores recreativos com objetivos de condicionamento físico e de “queimar” o excesso de gordura corporal, aprimorar a capacidade de oxidar ácidos graxos também representa uma vantagem, pois em cada treino utiliza quantidade levemente maior de gordura, proporcionando a diminuição dos estoques. Estes devem realizar treinos longos (1-2h) e evitar o consumo de CHO durante a corrida, para desviar o ciclo da glicose-ácidos graxos para utilização predominante dos ácidos graxos.

REFERÊNCIAS

[1] Randle PJ, Garland PB, Hales CN, Newsholme EA. The glucose fatty-acid cycle. Its role in insulin sensitivity and the metabolic disturbances of diabetes mellitus. Lancet. 1963; 13: 785-9.

[2] Silveira LR, Pinheiro CHJ, Zoppi CC, ..., Curi R. Regulação do metabolismo de glicose e ácido graxo no músculo esquelético durante exercício físico. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2011; 55(5): 303-313. https://doi.org/10.1590/S0004-27302011000500002 

[3] Newsholme EA. An introduction to the roles of the glucose-fatty acid cycle in sustained exercise. In: Hargreaves M, Thompson M. Ed. Biochemistry of exercise IX, 185-200. Champaign, IL: Human Kinetics; 1999, p.119-125.

[4] Garcia Júnior JR, Lagranha CJ, Pithon-Curi TC. Metabolismo dos ácidos graxos no exercício físico. In.: Curi R, Pompéia C, Miyasaka CK, Procópio J. Entendendo as gorduras: os ácidos graxos. São Paulo: Manole, 2002. p.199-214.

JAIR R. GARCIA JR. é corredor amador, professor da Unoeste, mestre em nutrição e doutor em fisiologia humana (ICB-USP), palestrante e consultor de saúde corporativa. jgjunior44@hotmail.com ­ Instagram: @jairgarciajr.prof