Escrito por: Jair Rodrigues Garcia Júnior. Corredores de longa distância, em geral, são magros, com percentuais de gordura de 6-10% para homens e 10-14% para...
Escrito por: Jair Rodrigues Garcia Júnior.
Alguns corredores não treinam adequadamente, mas há aqueles que seguem a planilha do treinador rigidamente e, mesmo assim, ao chegar numa corrida de 21Km e, principalmente, de 42Km, “batem no muro”. Esse é um termo bastante conhecido e temido entre os maratonistas, que significa atingir um súbito estado de fadiga, que faz diminuir significativamente o desempenho nos últimos Km de provas longas [1]. Neste texto e nos próximos veremos as possíveis causas dessa fadiga para que você possa prevenir em suas próximas corridas longas.
FADIGA PROTETORA
Fadiga é a incapacidade de manter a intensidade (pace, na corrida) desejada do esforço pelo tempo necessário ou pré-definido. É um mecanismo fisiológico “protetor”, pois indica que algo está em desequilíbrio, saindo do estado estável (steady state), que é essencial para realizar e completar provas longas. A fadiga impõe que você diminua progressivamente ou subitamente o ritmo para recuperar o equilíbrio e preservar a saúde, o que é mais relevante do que sua expectativa de desempenho durante 1h30 ou mais de esforço.
“Bater no muro” é o momento no qual o corredor atinge um súbito estado de fadiga, em geral, nos últimos Km de provas longas, sendo obrigado a diminuir significativamente seu desempenho.

TEMPERATURA CORPORAL
Esse é um parâmetro fisiológico homeostático, ou seja, é monitorado por sensores e controlado por efetores a cada segundo. A temperatura corporal normal é de 36,5 a 37oC, mas o organismo pode tolerar pequenos aumentos em algumas condições, entre elas o esforço físico. A temperatura central pode variar apenas apenas 2-3oC, mas a temperatura na superfície (medida na pele) pode variar até 11oC. Atenção: a temperatura na superfície não deve ultrapassar 42oC, sob pena de ocorrer mal-estar, fadiga e até perda da consciência e morte [2].
PRODUÇÃO E GANHO DE CALOR
A atividade muscular na corrida e em outros tipos de exercícios/treinamentos é uma fonte significativa de energia térmica, o que pode fazer com que a temperatura corporal se eleve rapidamente. Existe um cálculo para estimar a produção de calor e aumento da temperatura corporal. Para um corredor de 80Kg, correndo a 12 Km/h (pace de 5 min/Km) a temperatura corporal aumentaria cerca de 14,4oC a cada hora. Num ambiente quente (incidência do sol, temperatura do ar e temperatura do asfalto elevadas), a temperatura corporal e externa são quase iguais, podendo haver ganho de calor do ambiente e dificultando a perda.
EFICIÊNCIA DA TERMORREGULAÇÃO
O processo de regulação e manutenção da temperatura corporal é muito eficiente, permitindo que a temperatura aumente 2-3oC no máximo e não 14,4oC por hora, conforme o cálculo acima. Durante uma corrida, o mecanismo mais efetivo de perda de calor é a evaporação do suor que brota na pele, por isso, usar pouca roupa e expor a superfície corporal ao máximo é recomendado. Os três outros mecanismos complementares são a convecção e condução, que dependem do fluxo de ar (vento) ou água ao redor do corpo, e a radiação, que é a dissipação do calor por meio de ondas.

FALHA DA TERMORREGULAÇÃO
Apesar do processo de termorregulação ser bastante eficiente, pode falhar em condições extremas ou por descuido do corredor durante a prova, causando a fadiga, que o obriga a diminuir significativamente o a intensidade (pace) ou abandonar a prova, ou seja, “bater no muro”: i) ambiente de calor intenso e/ou umidade relativa do ar acima de 80%, que atrapalha a evaporação do suor; ii) usar roupas em excesso ou inadequadas à temperatura ambiente (calça comprida, blusa pesada, corta vento, manguito de braço, “camisa de plástico” etc), que evitam a circulação de ar, a evaporação e aumentam ainda mais a sudorese; iii) deixar de consumir líquido suficiente, ficar desidratado, com volemia (volume de sangue) diminuída e prejudicar a sudorese (transpiração).
REFERÊNCIAS
[1] Grivas GV, Alkasasbeh WJ, Amawi AT. Hitting the wall in marathon running: an integrative psychophysiological and durability-based review. J Funct Morphol Kinesiol. 2026 Jul 26; 11(3): 291. http://dx.doi.org/10.3390/jfmk11030291
[2] Garcia Júnior JR. Exercício em condições especiais. In.: Pithon-Curi TC. Fisiologia do exercício. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2013. Cap. 20, p.280-288. ISBN: 9788527722858
JAIR R. GARCIA JR. é corredor amador, professor da Unoeste, mestre em nutrição e doutor em fisiologia humana (ICB-USP), palestrante e consultor de saúde corporativa. jgjunior44@hotmail.com Instagram: @jairgarciajr.prof